Francisco, um escritor frustrado que contempla os fracassos de sua vida, começa a ter algumas visões que o levam a questionar a própria sanidade mental. Com o propósito inicial de investigar o mistério e não perder a conexão com a realidade, põe-se a registrar o que vê num diário. Aos poucos, porém, os eventos inexplicáveis o forçam a reconectar-se com suas memórias mais íntimas, com a lembrança de seus antepassados imigrantes no sul do Brasil, com seu presente, e o diário assume involuntariamente as feições de um testamento, por meio do qual o herói-narrador reorganiza as peças desconexas do quebra-cabeça de sua vida e se vê diante de indagações existenciais. Somos assim levados por suas páginas a reflexões sobre a própria natureza da escrita literária e da linguagem, o tempo e seus enigmas. “A casa de todas as memórias” é um romance que celebra o sentido da vida adquirido através da contemplação da memória e da criação verbal: a arte das palavras (assim como toda forma de arte) é um fato intrinsecamente humano, uma função indissociável da alma, e somente no humano tem sentido, inexistindo fora dele. Em tempos de desumanização e artificialização de processos criativos, acompanhamos o trajeto doloroso do herói, quase um símbolo de uma época que se encerra, no despertar para dimensões mais inefáveis da existência e na forçosa resignação diante da falibilidade e das aporias da vida.