Este livro poderia ter seu título traduzido por A força da verdade, certamente mais simples e até mesmo mais gracioso. Contudo, Pedro de Souza faz valer o sentido atualmente negligenciado, senão fantasiado numa concepção de que traduzir é sempre alterar, da locução italiana Traduttore, traditore (Tradutor, traidor). Assim, a escolha do tradutor transmite ao leitor, se não a diferença, a distância, sobre a qual o escrito de Lorenzini é erigido, entre a verdade (vérité) como substância e o verdadeiro (vrai) como resultado de um processo. Essa oposição, defendida no livro e na tradução de seu título, não se reduz a um simples jogo de palavras. Ela explicita a disparidade entre duas perspectivas filosóficas, não apenas com compreensões distintas da verdade, mas concepções díspares da própria realidade. No primeiro, é preciso distinguir aparência e essência, a fim de formular um modo exato de pensar a realidade; no segundo, mergulha-se no chamado senso comum, ou mais precisamente nos usos que faz da língua, e nos conceitos por ele manejados com objetivo de melhor compreender o modo como a realidade é pensada e, portanto, de apreender mais rigorosamente essa realidade. - Alessandro de Lima Francisco - Pesquisador do Collège International de Philosophie e professor da Unesp/ Câmpus de São Paulo.