Na temática do adoecimento crônico este livro é um dos mais abrangentes, empíricos e bem estruturados que se pode usufruir, pois de forma única consegue abordar temas de alta complexidade e apresentar as múltiplas facetas da questão de forma aprofundada. Torna-se uma leitura obrigatória para qualquer pesquisador, sanitarista ou estudante da área da saúde, dado o crescente avanço das doenças crônicas no Brasil e no mundo. A organizadora, uma das precursoras na discussão acerca do adoecimento de longa duração no país, teve mérito enorme na seleção e organização dos temas desta coletânea, dado que compreender as doenças crônicas implica, para as ciências sociais e humanas, compreender o sofrimento e o impacto que elas causam nos indivíduos afetados.
No primeiro capítulo, Canesqui discorre sobre a contribuição das ciências sociais e humanas na análise das enfermidades de longa duração. Um contraponto interessante nesse texto é a justaposição de publicações com abordagens nas ciências sociais e na epidemiologia. Enquanto nas ciências sociais o enfoque está nos sujeitos que passam por sofrimentos prolongados devido as doenças crônicas, no campo epidemiológico a preocupação está no caráter terapêutico, preventivo, curativo/paliativo desse sofrimento. Canesqui demonstra que não se trata de uma contraposição das ciências sociais e da epidemiologia, mas da necessidade de interlocução entre saberes distintos, sobretudo no que ela nomeia a relação entre material e imaterial, isto é, as condições objetivas, a cultura e a organização social.
O adoecimento crônico é objeto de análise e discussão do segundo capítulo, escrito por Barsaglini. Os termos cronicidade, cura, cuidado, risco e fator de risco, condições crônicas, historicamente construídos sob a influência da epidemiologia, são problematizados à luz das ciências sociais e humanas. Conceitos complementares são inseridos na discussão, a fim de compreender a dinamicidade das relações causais complexas desses adoecimentos, em especial determinantes sociais em saúde, vulnerabilidade, sofrimento e fragilidade social. Desta forma, a autora amplia a noção de condições crônicas, incitando a necessidade de rever o sentido de cura nesses casos, sendo mais adequado pensar em reequilíbrio no modo de viver a vida com uma nova condição crônica.
A seguir Yoshino aborda um dos tipos de sofrimento atual vivenciado por nossa sociedade, a obesidade. Ela analisa diversas estatísticas sobre o assunto e nos dá a dimensão do problema. Mostra o caráter social da doença e defende que a execração sistêmica do “gordo” apenas aumenta o sofrimento causado ao sujeito. Discorre sobre a normatividade corpórea e a discriminação que fazem parte do contexto e que provocam dores físicas e emocionais, colocando a obesidade como um sofrimento social generalizado, ainda que com peculiaridades e singularidades em cada caso.
No quarto capítulo, Pinto faz uma imersão no tema com uma narrativa detalhada sobre a realidade do sujeito com dor crônica, totalmente distinta da visão do modelo biomédico. Neste trabalho a autora usa um relato de caso bastante extenso que descreve os meandros entre necessidade e produtividade econômica. Aponta que essas relações descaracterizam o sujeito como ser, pois, sua sobrevivência passa a ser subordinada às relações capitalistas. O texto se diferencia ao trazer em um relato único a realidade intrincada de séries estatísticas antigas, que comprovam o peso do trabalho ao trabalhador e que as condições crônicas, dores e sofrimentos por ele causados (quando há abusos) vão muito além da enfermidade em si.
O capítulo cinco aborda a anemia falciforme, como um adoecimento de longa duração, que impõe ao sujeito viver “com e apesar da doença”1 . Tal condição é caracterizada por sua descoberta muitas vezes tardia, dado a “camuflagem” da mesma. As autoras analisam o processo de tornar-se doente, cujos elementos micro e macrossociais, a identidade do sujeito, o momento da epifania, as ajudas externas, o constante contato com médicos, equipes de saúde, entidades de apoio aos portadores, instituições governamentais e discussões étnicas, reforçam a importância da detecção precoce e tratamento acessível para toda a vida.
Dentre os sofrimentos de longa duração, Trevisan discute no capítulo seguinte os riscos e as condições adversas atreladas ao trabalho de motoristas de carga altamente perigosa, tema pouco explorado na literatura nacional. A ideia de risco é amplamente discutida, confrontando as visões quantitativas e qualitativas sobre o assunto e como o seu significado e importância se alteraram ao longo da história. Com base nos depoimentos colhidos a autora reconhece que os motoristas “anulam “os riscos para se manterem no emprego, o que agrava o stress mental.
A partir do capítulo sete, os estudos inovam ao utilizar a produção textual de espaços virtuais, relatos provenientes de grupos terapêuticos e do papel de acompanhantes no tratamento do câncer. Neste capítulo, Canesqui e Separ