A diversidade de linguagens poéticas existente contemporaneamente exige do leitor um esforço peculiar para distintos tempos e posturas de leitura de forma a se entrar no universo de cada livro ou poeta e não recusá-lo por estranho, ilegível, rarefeito ou outro motivo, já pelos primeiros poemas. Além disso, como experiência já amplamente assimilada da poética moderna, a consciência poética não permite mais ao leitor resquícios de ingenuidade. Cabe a ele, portanto, um esforço de compreensão para desvendar cada experiência poética em suas peculiaridades, em vez de recusá-la, buscando o tempo adequado de leitura segundo a proposta da voz com a qual se defronta. Tome-se por exemplo o novo livro de Flávio Viegas Amoreira, 'A biblioteca submergida', que, por cultivar uma escrita em jorro, ou uma espécie de "acumulação escatológica de palavras concentradas", segundo uma citação que o autor faz de Kerouac, pede do leitor uma velocidade especial de leitura; pede uma urgência que dê conta da cornucópia que se abre dessa biblioteca submersa e derrama palavras, nomes e referências que não necessariamente solicitam reconhecimento, uma vez que estão a serviço de uma voz poética poderosa que as manipula para se esgueirar.