Publicado em 1920, Bliss e outras histórias é exemplar do estilo primoroso, poético e cortante de Katherine Mansfield, um dos expoentes da literatura do século XX. Mansfield influenciou escritoras do porte de Clarice Lispector e Virginia Woolf, sendo que esta última chegou a confessar que a escrita de Katherine foi a única que ela invejou. Este, que é seu segundo livro de contos, foi um grande marco em sua carreira, sendo o primeiro que trouxe à frente a forma modernista madura que a caracterizou (já que ela rejeitou o seu livro de estreia e se recusou a republicá-lo em vida). Nossa edição de Bliss e outras histórias não faz, portanto, um apanhado de contos de Katherine: temos aqui a obra que a colocou no panteão do modernismo britânico, tal como ela a concebeu.
De forma vanguardista, a ordem dos catorze contos foi pensada por Katherine Mansfield musicalmente em termos de intensidade e ritmo. Violoncelista de grande talento, ela estudou cello no Queen’s College entre 1903 e 1906. Ao ter sua carreira impedida pelo pai, decidiu dedicar-se à escrita, na qual imprimiu seu profundo conhecimento musical. As histórias deste livro são emblemáticas de seu projeto modernista pois, além do apuro extremo com a linguagem, não há enredo definido, fechamento, lição de moral ou ápices dramáticos. A cada uma, somos mergulhados em plena ação, atravessados pelo fluxo de conversas, impressões e pensamentos de pessoas que já estão presentes e que vão e vêm, frustram-se e sonham. É gente como nós, cujo cotidiano aparentemente simples sempre guarda à espreita algo de existencial ou trágico: uma família de mudança, turistas em férias, uma jovem professora, uma ex-cantora de ópera, amantes ou pessoas desiludidas com o amor, crianças, sonhadores.
O conto que intitula a coletânea, “Bliss”, um dos mais famosos de Mansfield, foi traduzido e comentado em uma dissertação de mestrado por Ana Cristina César, que chamou a atenção para a irredutibilidade da palavra bliss e optou por verter o título como “Êxtase (Bliss)”. A tradução de Ana Carolina Mesquita (que vem traduzindo as obras de Virginia Woolf para a Nós) opta por desdobrar a questão identificada por Ana C. e traz entre parênteses as diversas acepções da palavra que Katherine coloca em jogo nesse conto, empregando-as no corpo do texto de acordo com as diferentes situações. Assim, “Bliss” se torna “Bliss (ou: êxtase, arrebatamento, enlevo, felicidade)”.
Outro destaque é o conto “Prelúdio”, o mais longo de Mansfield (trata-se praticamente de uma pequena novela), publicado pela primeira vez em 1917 pela Hogarth Press, a editora de Leonard e Virginia Woolf. Woolf, com quem Katherine nutriu uma relação ambivalente de profunda amizade e rivalidade, o compôs o texto, ela mesma, manualmente, com tipos móveis, para impressão. “Prelúdio” se baseia em episódios autobiográficos da infância de Katherine na Nova Zelândia e é um exemplo da prosa modernista em seu ápice.
Com um projeto gráfico arrebatador, esta edição traz apresentação do professor Davi Pinho (UERJ), especialista em modernismo inglês, além de introdução e notas de Ana Carolina Mesquita.