O que significa ser branco na América Latina? O livro “Branquitudes/Blanquitudes: Diálogos latino-americanos sobre convivência e desigualdade” responde a uma pergunta historicamente ignorada, colocando em foco as diversas formas e contextos que a branquitude assume na região. Não se trata apenas de atributos físicos, mas de estruturas de privilégio, afetos, práticas culturais e narrativas nacionais que têm sustentado o racismo sob a aparência de mestiçagem e harmonia. A partir de uma perspectiva crítica e coletiva do Sul global, esta obra reúne pesquisas pioneiras que abordam as tramas cotidianas e históricas do privilégio branco no Brasil, México, Colômbia, Chile e outros contextos. Longe de replicar marcos eurocentristas, introduz categorias como “branquitude extraordinária”, “blanquigrafia” ou “raça confessional”, que
permitem renovar, com chaves próprias, as formas de pensar e desafiar os vínculos entre racismo, convivialidade e neoliberalismo. Com vozes provenientes de diferentes gerações, disciplinas e países, esta obra convida a descentrar o debate racial e a pensar a América Latina a partir de suas próprias condições históricas, sociais e epistêmicas, para ampliar as fronteiras do pensamento crítico global.
—Mara Viveros Vigoya
Os latinoamericanistas têm estado na vanguarda dos estudos sobre a branquitude, na medida em que as investigações sobre as formações raciais nas quais as ideologias e práticas de “mistura” desempenham um papel estruturante e têm frequentemente incluído um enfoque no branqueamento. Embora os estudos sobre o branqueamento não sejam coextensivos aos estudos sobre a branquitude, eles necessariamente abordam a ideia de que a branquitude tem sido e continua sendo considerada valiosa: fisicamente, moralmente, esteticamente e culturalmente. Isso é evidente tanto no nível individual de trajetórias e genealogias pessoais, quanto no nível coletivo de bairros e regiões dentro de um país, ou de nações no contexto global. Este livro dá continuidade a essa tendência de forma inovadora, forjando uma perspectiva especificamente latino-americana sobre a branquitude, analisando sua inter-relação com a ideia de convivialidade e combinando a pesquisa lusófona e hispanófona para desafiar o predomínio da literatura anglo-saxônica sobre a branquitude. Alguns capítulos exploram o branqueamento de maneiras inovadoras e diversas; por exemplo, analisando as políticas urbanas que vinculam a melhoria ao branqueamento moral e estético, o que conduz à segregação racial; ou rastreando a valorização da branquitude como um fio condutor que conecta o Brasil colonial, imperial e republicano, uma preocupação que também tem sido uma preocupação de longa data para os intelectuais negros; ou mapeando a coconstituição de hierarquias raciais e de classe, que impulsiona estruturalmente o branqueamento. Outros capítulos aprofundam a própria branquitude, o corolário menos examinado do branqueamento. Eles revelam brilhantemente a rica diversidade de significados associados à branquitude (branquitude, branquidade), tanto historicamente quanto na atualidade. Igualmente importante é uma abordagem hemisférica relacional que evite oposições excepcionalistas entre o norte e o sul. Estudos baseados na sensibilização emocional exploram os mecanismos afetivos que promovem o privilégio da branquitude, seja por meio de pedagogias terapêuticas ou da convivência homossocial, e também instam as pessoas brancas a revisar autorreflexivamente suas próprias trajetórias e posicionamentos.
Esse livro é leitura obrigatória para todos os estudantes e acadêmicos que buscam compreender os panoramas em transformação da branquitude e da racialização na América Latina e além.
—Peter Wade