Quem foi o Buda?
A resposta parece conhecida: Siddhartha Gautama, príncipe que abandonou uma vida de privilégios, alcançou a iluminação sob a árvore Bodhi e dedicou o restante de sua existência a ensinar um caminho para a libertação do sofrimento.
Mas quanto dessa história pertence à história e quanto pertence ao mito?
Em Buda, a biografia de um mito, Donald S. Lopez Jr., um dos grandes estudiosos contemporâneos do budismo, revisita a vida de uma das figuras religiosas mais influentes da humanidade. Para isso, recorre a diferentes tradições budistas e a textos em páli, sânscrito, chinês e tibetano, acompanhando episódios que vão do nascimento extraordinário do futuro Buda à iluminação, aos primeiros ensinamentos, aos milagres, à formação de sua comunidade e à morte e entrada no nirvana. O próprio autor explica que cinco textos constituem grande parte da matéria-prima desta biografia.
Mas Lopez também investiga outra história: como o Ocidente criou o Buda que hoje acredita conhecer.
A partir do século XIX, estudiosos europeus procuraram retirar das antigas narrativas seus elementos sobrenaturais para encontrar por baixo deles um personagem histórico: um mestre humano, racional, quase moderno, crítico do ritual e da religião institucional. Lopez questiona esse procedimento. Afinal, os textos budistas descrevem um Buda que nasce de maneira extraordinária, fala e caminha logo após nascer, realiza milagres, convive com deuses e demônios e possui características sobre-humanas.
Em vez de eliminar essas histórias, Lopez as recoloca no centro da narrativa. Inspirado de maneira surpreendente por A tentação de Santo Antão, de Gustave Flaubert, ele procura remitologizar o Buda e mostrar que talvez não exista uma fronteira simples entre o personagem histórico e aquele criado ao longo de séculos de narrativa, devoção e imaginação.