O texto Convívio das Diferenças não pretende oferecer respostas definitivas, mas abrir frestas por onde podem passar a escuta, o espanto, a dúvida e a esperança. Ao lançar luz sobre as experiências familiares diante do uso de substâncias psicoativas, a obra propõe uma leitura que recusa o estigma, reconhece a complexidade dos contextos e a valoriza como ferramenta de cuidado. Um livro que se oferece como território de encontro entre saberes, afetos e cuidados. O comprometimento com o tema apresentado parte de vivências pessoais e profissionais com pessoas em situação de uso de substâncias, em instituições de saúde mental, com o objetivo de analisar os conteúdos de dez entrevistas com base etnológica, realizadas com familiares diante da escassez de publicações que abordassem a temática da família nesse contexto. Esta história nasce da convicção de que a família precisa ser escutada, e este texto visa abrir caminhos para ampliar a compreensão desse problema complexo, além de contribuir para o fortalecimento das famílias, promovendo sua autonomia e capacidade de enfrentamento diante das tensões que atravessam as relações de cuidado. A frase: “Nunca digam: isto é natural”, de Brecht, está presente neste texto como um farol. Ela convoca a recusa da normalização do sofrimento, da indiferença social e da invisibilidade imposta aos que vivem em desacordo com um padrão ético da família em sociedade, no contexto de fragilidade e inseguranças. Considera-se que o uso de substâncias psicoativas não pode ser reduzido a um desvio individual, tampouco tratado como um fenômeno isolado. Ele está imbricado em determinantes sociais, em trajetórias marcadas por desigualdades, em vínculos fragilizados e em políticas públicas que, muitas vezes, falham em oferecer cuidado integral em contextos marcados por inúmeras diferenças.