COREOGRAFAR A CRISE - martinsfontespaulista

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    COREOGRAFAR A CRISE

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    Sinopse

    O que mais ressoa em Shelter (2024), de Simryn Gill (Richard Saltoun Gallery), é justamente aquilo que você não consegue ver completamente: paredes cobertas de papel vegetal, sobre as quais se encontram fricções em carvão daquilo que não pode jamais ser contido, do que resiste à transferência. Catherine de Zegher monta esses decalques, desloca essas não representações frágeis para dentro da galeria. Trata-se de uma colaboração: Gill, a artista, percorre a camada incipiente do irrepresentável do mundo, de sua ecologia frágil. De Zegher, a curadora, ativa os seus interstícios para um breve momento de representação. O que emerge: o entre indizível. Coreografar a crise — gestos entre arte e ecologia, de Marina Guzzo, é um gesto curatorial desse tipo — ao mesmo tempo artístico e dotado de um toque delicado capaz de captar a incipiência daquilo que não pode propriamente ser representado. Porque os gestos não podem ser representados: são movimentos. Movimentos menores são desvios da linha. Eles captam seu tremor e o intensificam. Não são nem pequenos nem gentis. Seu modo de existir não é o de uma postura moral. Quando um gesto “minora”, quando se move no ritmo do menor, ele inclina a existência, perturbando o caminho reto e estreito. O menor é a qualidade, o toque, da capacidade intensa do gesto de redireciona — ou, melhor dizendo, de proliferar. Nego Bispo escreve sobre a impossibilidade da linha reta da herança: A geração da avó está preparando a geração da neta para ser a próxima geração-mãe; ao mesmo tempo, a geração da mãe está preparando a geração da neta junto com a geração da avó; e a geração da avó aprenderá a ser a próxima geração-avó através da geração da neta. A geração da neta também ensina a geração da mãe a se tornar aquilo que elas são. A herança “minora” no relato de Bispo. O gesto menor aqui não é a linhagem, mas o modo como a espiral genealógica carrega a potencialidade-neta dentro da mãe, o modo como a mãe é carregada pelo futuro-passado que ela sempre também está se tornando. A ecologia ambiental chegou a um ponto de inflexão. Nenhuma estabilidade pode ser prevista: o limiar crítico do ponto de inflexão produz estados emergentes que não têm precedentes. Pensar o sem-precedentes significa captar a curva, tornar-se espiral. Aprender a pensar a partir do ângulo do céu caído, como diria Davi Kopenawa: “Escavando tanto, os brancos vão acabar até arrancando as raízes do céu”. Um ponto de inflexão ecológico conduz a uma cascata de imprevisibilidade, a uma perda do chão, a uma mudança de dimensão. No relato de Kopenawa sobre os yanomami, é a espiral que conduz, não o solo estável. Assim como a lembrança de Bispo de que a geração da neta ensina a geração da mãe a se tornar aquilo que ela é, não há pressuposição da linha, da orientação estável entre passado e futuro, terra e céu: “Sendo a terra atual um céu caído no primeiro tempo”. A arte como objeto é uma invenção do tempo estável. Mais desvio do que forma, a arte — sua engenhosidade estética — inclina a experiência. Desse modo, quando produz, ela minora. Como gesto menor, sua força, seu ímpeto, é colocar a existência no limiar. Não para nos alertar, como se a arte pudesse contar o tempo, mas para nos acompanhar ao lado rumo a outros mundos, a outras genealogias. Onde céu e terra se tocam, arte e ecologia não podem ser arrancadas uma da outra, a arte sendo a intensidade do gesto que nunca pousa completamente. Aterrissar é presumir a separação entre terra e céu, entre a terra e seu povo, entre ecologia e pensamento. Os dezesseis gestos de Guzzo, o modo de pensamento em espiral que anima Coreografar a crise — do nomear ao misturar, do vegetalizar ao cuidar, do emaranhar ao tocar, ao fabular —, não fazem presunções. Pelo prisma do menor e de sua coreopolítica, os gestos se reúnem, cuidam, indagam, permitindo que a força artística do rendimento estético da arte vá além da forma, rumo à força do campo desterritorializado de intensidade da arte. Por meio de técnicas de superposição, palimpsesto, distensão, Guzzo capta o que a arte pode fazer diante da crise. Não há soluções nem equações fáceis. Mas o céu não cai. Ainda não. E no ainda-não do não-cair do céu, no coro de netas cantando os futuros de suas mães, escuta-se a urgência de Ailton Krenak: que vivamos outra forma de estar juntos, uma inseparabilidade diferencial. Em Krenak, a aliança afetiva desafia a linha reta. Uma poética da relação, a aliança afetiva conecta-se à parcela excessiva da aliança além de qualquer noção idealizada de filiação. Ela compartilha a própria relação. Na partilha relacional, as ecosofias florescem. Essa estética da terra, para usar a terminologia de Édouard Glissant, excede a logicidade da troca. Não se trata de dar e receber. Trata-se da transversalidade vivida no escopo e na escala do palimpsesto geracional, a criança maternando a avó, seus dedos estendidos para tocar o céu côncavo. O céu côncavo, sua curva ameaçando afundar nossa terra em chamas, ressecada, i

    Ficha Técnica

    Especificações

    ISBN9786586598513
    SubtítuloGESTOS ENTRE ARTE E ECOLOGIA
    Pré vendaNão
    Biografia do autorMarina Guzzo é artista, professora e pesquisadora na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), no campus Baixada Santista. Realizou pós-doutorado no Departamento de Artes Cênicas da ECA-USP e no centro de pesquisa interdisciplinar Affective Societies, da Freie Universität Berlin. É mestra e doutora em Psicologia Social pela PUC-SP e desenvolve suas pesquisas no Laboratório Corpo e Arte, no Instituto Saúde e Sociedade, do qual é uma das fundadoras. Sua produção artística e teórica investiga as relações entre corpo, paisagem e ecologia, articulando dança, performance e circo em contextos urbanos e naturais. Desde 2011, tem como eixo central de pesquisa a crise climática e o papel das artes na produção de imaginários e práticas para atravessar o Antropoceno. Atua em colaboração com instituições de saúde, cultura e assistência social, compreendendo a arte como ação política e como prática capaz de tecer redes interespecíficas entre pessoas, territórios, plantas, animais, fungos e paisagens.
    Peso250g
    Autor para link
    Livro disponível - pronta entregaNão
    Dimensões0.2 x 14 x 21
    IdiomaPortuguês
    Tipo itemLivro Nacional
    Número da edição1ª EDIÇÃO - 2026
    Código Interno1198542
    Código de barras9786586598513
    AcabamentoBROCHURA
    AutorGUZZO, MARINA
    EditoraGLAC EDITORA
    Sob encomendaNão

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