Este livro examina, em perspectiva crítica e interdisciplinar, a trajetória da redemocratização desde o Massacre do Carandiru até a crise de 2016, com atenção às tensões entre a promessa do Estado de Direito e a persistência de desigualdades, violências e práticas autoritárias. A democracia, embora institucionalmente consolidada em vários aspectos, permaneceu atravessada por permanências incômodas. Nesse percurso, discute-se o papel dos direitos humanos como horizonte normativo e campo de disputa concreta, ao longo de duas gerações de militância. No contexto de ampliação da participação social e de políticas sociais de promoção de direitos humanos no Brasil, examina-se a atuação de lideranças e movimentos sociais, organizações da sociedade civil, novos arranjos institucionais e políticas públicas voltadas à democratização da esfera pública, com destaque para o PNDH-3 e a Comissão Nacional da Verdade. Ao mesmo tempo, constata-se a inflexão provocada pelas tecnologias de comunicação e redes sociais digitais, reconfigurando a esfera pública, com efeitos ambivalentes sobre a circulação de informações, a formação da opinião pública, a participação política e as dinâmicas de mobilização social. Essas tensões se conectam a turbulências transnacionais, incluindo novas formas de contestação, o avanço de agendas conservadoras e o fortalecimento de direitas em múltiplas escalas. Expõe complexos sistemas de crenças dividindo os campos conservador e progressista e identifica potenciais aproximações entre os atores em pautas relevantes, em dimensões menos profundas dessas crenças. A pesquisa abrange extenso acervo documental e entrevistas com lideranças da direita e da esquerda, de mais de uma geração. A democracia aparece, não como estado acabado, mas como promessa civilizatória e processo tensionado por disputas normativas, conflitos sociais e batalhas simbólicas, um projeto cuja compreensão exige articular instituições, crenças, conflitos, tecnologias e estruturas sociais que moldam a vida democrática no Brasil.