Deixar de ter escravos para só ter cidadãos: debates em torno da escravidão e da liberdade é um dos capítulos do livro de Lucian Souza da Silva que nos provoca a pensar e narra as interações e sociabilidades de um passado que se faz presente, ou seja, as relações sociais e históricas do século XIX continuam no Tempo Presente, século XXI. Após cento e trinta e oito anos do início da formação da sociedade brasileira, sem o marco oficial do escravismo, para a construção de uma país republicano (1889), ainda vivemos com as “sombras”, heranças e desigualdades sociorraciais (e muitas outras) daquele período histórico, posto que predominam tanto as múltiplas hierarquias (raça, classe, gênero, regionais, etc.), a permanência/insistência de se manter uma sociedade “diferenciada” com demarcação de privilégios de classe e, portanto, de afirmação de elitismo e de padrão cultural europeu, quanto de racismos (estrutural, institucional e cotidiano) e, cada vez, há o afastamento do projeto político iluminista com ideais republicanos, cujo mundo poderia ser delineado a partir do paradigma dos Direitos Humanos, cujos preceitos foram propostos por uma estrutura de “poder político emanado do povo” e eleições representativas. Sabemos, sem dúvida, que o mencionado projeto europeu, com viés capitalista e imperialista, nunca se concretizou efetivamente e “outro(s) mundo(s) é/são possível/eis, em confronto ao capitalismo globalizado”.
Entretanto, o momento é de assinalar a importância do livro que vem a lume para público mais amplo. De pesquisa concretizada ao longo de mais de uma década e, que tive a oportunidade (e o privilégio) de acompanhar as primeiras indagações e escolhas do pesquisador e professor Lucian Souza da Silva, autor de estudo elaborado em diálogo com a potente História Social da escravidão, variadas áreas de saberes e metodologias, assim como do uso de inúmeras fontes documentais, para a reconstituição e fragmentos do passado escravista no Brasil oitocentista, como a agência e protagonismo de personagens escravizadas (Joana, Luís, Francisco, Bertolesa e muitas outras/os) e suas conexões com diferentes grupos (a exemplo de povos originários, elites e sujeitos libertos), isto é, o autor elucidou a complexidade do sociocultural, tendo a gente negra e o contexto de crise do sistema escravista como foco de suas análises. Em suas reflexões analíticas, não deixou ainda de salientar as permanências históricas no Tempo para a concretização do “fim do cativeiro” e como “Hidra” continua a se fazer presente. Contudo, simultaneamente, o pesquisador discorre sobre as ações políticas atuais, as configurações de corpos negros e “insubmissos”, tendo como orientação aos princípios as ancestralidades. Nesse sentido, Lucian Souza da Silva se une aos ecos da filosofia dos povos bantos: “Eu sou porque somos” e no “Esperançar” de Paulo Freire, colocando o conhecimento histórico para se enfrentar a(s) “hidra(s)” contemporâneas, visando subverter o passado na construção de um mundo com menos iniquidades e republicano. Enfim, compreendo que o texto de Lucian Souza exercita nossa imaginação criativo-científica, socializa a produção acadêmica e estimula o debate político de temas históricos atuais e contundentes.
João Pessoa, Outono – Junho de 2026
Solange Rocha – História na UFPB