O que impulsiona a produção de uma coletânea sobre gênero no Brasil hoje? A História das Mulheres, enquanto campo de produção de conhecimentos com características específicas, assim como a adesão aos estudos de gênero, apoiados na concepção de categoria analítica, têm sido espaço visceral da produção historiográfica.
A despeito de resistências perceptíveis, materializadas na ausência de formação consistente nesta esfera em cursos de bacharelado e licenciatura em História, onde disciplinas dedicadas a este debate são inexistentes ou recém incorporadas aos programas de ensino, a vitalidade da produção demonstra a força de um movimento genuíno de reflexão e luta, tão atinentes aos pressupostos feministas.
Diante de um contexto que desconfia da relação entre militância e produção científica rigorosa, os estudos sobre gênero são verdadeiras evidências não apenas de sua possibilidade, mas do compromisso teórico assumido no manejo de conceitos e categorias, cuja importância é incontestável para o avanço da compreensão sobre os fenômenos sociais e históricos sobre os quais se debruçam pesquisadores e pesquisadoras no país.
A coletânea “Gênero nas Tramas da História: Poderes, Culturas, Identidades e Interseccionalidades”, organizada por Paulo E. Teixeira, Maria A. P. Sanches, e Ana C. E. C. Soares oferece um panorama amplo acerca do que está sendo realizado no âmbito da historiografia brasileira que se dedica aos estudos sobre mulheres, gênero e interseccionalidades.
Ao articular temporalidades, espacialidades e aportes metodológicos, o conjunto de textos aqui apresentados conduz cada leitor a percorrer temáticas variadas. Sem ordem obrigatória, pode-se iniciar a aventura literária pela última seção, assim como escolher por meio de assuntos de maior interesse quais capítulos irão compor a trama individual de cada leitora ou leitor.
Falamos de um conjunto de 18 capítulos, escritos por 22 pessoas, sendo a maioria composta por mulheres, o que denota o compromisso em reconhecer a relevância do papel das historiadoras, mas também indica de forma incisiva que, ao falar de gênero, estamos falando de mulheres e homens.
Tramando trajetos através dos tempos passados, é possível percorrer fontes múltiplas analisadas com esmero e comprometimento analítico, conhecendo e reconhecendo o protagonismo de personagens muitas vezes negligenciadas pela historiografia tradicional. É uma trama que envolve produção intelectual, sem deixar de lado o ímpeto por transformações sociais para todas as pessoas!