Uma leitura original e sensível da obra de Gilberto Freyre, iluminando um eixo nem sempre colocado no centro do debate: o papel das presenças estrangeiras – pessoas, técnicas, objetos, ideias – na formação social e cultural brasileira. O livro Linhas e curvas, cinzas e cores foi vencedor do III Concurso Internacional de Ensaios – Prêmio Gilberto Freyre 2024/2025. Resultado de uma pesquisa amadurecida ao longo de mais de uma década, o ensaio de Isabella Mendes Freitas percorre a produção freyriana como quem caminha por uma paisagem cheia de desvios, texturas e sobreposições. O fio condutor desse percurso está nas marcas deixadas por estrangeiros e estrangeirismos no Brasil, especialmente na cultura material, na vida cotidiana, na técnica e nos modos de habitar o espaço. A autora revisita textos fundamentais das décadas de 1930 e 1940, com atenção especial a obras menos frequentadas, como Um engenheiro francês no Brasil e Ingleses no Brasil. Nesse movimento, evidencia uma inflexão importante no pensamento de Freyre: da crítica aos excessos europeizantes do processo civilizador à valorização de experiências estrangeiras capazes de dialogar com o meio tropical, suas paisagens, seus ritmos e suas formas de vida. Ao analisar figuras como o engenheiro francês Louis-Léger Vauthier, Isabella Mendes Freitas revela como Freyre associou engenharia, arquitetura, técnica e cultura, atribuindo centralidade a agentes discretos – artífices, técnicos, trabalhadores – e a objetos cotidianos, frequentemente ausentes das narrativas clássicas das Ciências Sociais. Casas, máquinas, ruas, materiais de construção e utensílios tornam-se chaves interpretativas para compreender o Brasil em transformação. O prefácio de Fernanda Arêas Peixoto, professora titular da USP, sublinha o caráter ensaístico da obra e a força de sua proposta interpretativa. Para a antropóloga, o livro acompanha Freyre sem a pretensão de capturá-lo por completo, mas apontando caminhos férteis para segui-lo em sua escrita aberta, marcada por ambivalências, desvios e invenção. Publicado pela Global Editora em parceria com a Fundação Gilberto Freyre, Linhas e curvas, cinzas e cores amplia o debate sobre o Pensamento Social Brasileiro ao recolocar em cena temas como ecologia social, patrimônio cultural, técnica, memória e adaptação. Um ensaio que observa o Brasil pelos detalhes.