Finalista do Prêmio LeYa 2021, Memórias de uma mulher morta, de Sandra Godinho, se inscreve na tradição da grande literatura ao entrelaçar, com intensidade e delicadeza, temas universais como família, amor, amizade, morte, liberdade, amadurecimento, solidão, poder, pertencimento e justiça. É a partir desse conjunto pulsante que o livro se constrói — e é no amálgama visceral e poético desses elementos que a autora tece uma narrativa profundamente marcante.
Ambientado em Caxias do Sul, entre as duas guerras mundiais, o livro nos conduz por uma paisagem histórica e emocional rica em tensões e transformações. Com uma escrita pungente, crua e carregada de simbolismos, a narrativa se desenrola como um labirinto de imagens e sensações que, ao mesmo tempo, atordoam e encantam. Acompanhamos Maria em sua trajetória da infância à vida adulta, enquanto se revelam seus universos internos e as forças externas que moldam sua existência.
Em primeiro plano, estão as descobertas, perdas e aprendizados que compõem sua formação; ao fundo, uma ambientação minuciosa e uma pesquisa cuidadosa expõem, com beleza e complexidade, o contexto histórico brasileiro do período. Nesse cenário, o livro também se afirma como uma narrativa profundamente feminista, ao lançar luz sobre as experiências, silenciamentos e resistências de uma mulher em um tempo que tantas vezes tentou apagá-la.
Há, neste livro, um duplo movimento essencial: o de resgatar as histórias que nos constituem como nação e o de narrar aquelas que nos formam como indivíduos. Memórias de uma mulher morta responde, com potência e sensibilidade, a esses dois chamados — e reafirma o lugar da literatura como espaço de memória, reflexão e permanência.