Aos 17 anos, Isabela Soares estreia na poesia com muita personalidade. Neste livro não há nenhum tipo de utopia, platonismo ou idealização da vida, mas nele se retrata uma condição humana que está do avesso, para além do que é triste e sem saída, sem ilusão ou esperança. Nele também não se ensina a autoajuda, mas atenta-se ao amor à flor da pele como algo assustador. Amor, morte, fantasias mais livres e assuntos do cotidiano se alternam entre os temas abordados, recebendo um banho de imaginação fértil (que é própria do fim da adolescência) e sendo moldados por uma poeta capaz de criar cenas, eventos e situações inusitadas. Aqui, a vida é cruel, o mundo é cão e não há a possibilidade de pará-lo para alguém descer. Pode-se, talvez, imaginar o que viria depois da vida – o que também aparece no livro, mas de maneira muito sutil. O título é inspirado em uma música do Cazuza, vendo-se logo o quanto uma geração anterior foi capaz de influenciar outra (em específico o público das grandes cidades e da cultura de massa), levando a uma mesma temática sobre os desafios inúteis, as dificuldades e o desamparo, junto à sensação de um amor que é excessivo, exaltado, próprio da liberdade e insistente na expressão emocional. Talvez o leitor mais estudado possa reconhecer nesse tipo de poesia algo de Augusto dos Anjos (1884-1914), poeta paraibano do pré-modernismo, que em sua crítica à hipocrisia dos hábitos tradicionais (e munido de muito pessimismo) desconstrói crenças, verdades e costumes sem fundamento – que já não teriam praticidade ou qualquer sentido. Isabela Soares fala da morte com um niilismo latente e assumido, em uma espécie de visão crua do mundo, advinda de um pensamento que é também de puro realismo aplicado às relações em sociedade. Se por um lado ela fala de nossa irrelevância, da desimportância das coisas e de certas relações, há também as histórias bonitas de reinos que nunca existiram, de pessoas (com nomes próprios bem realçados) que podem ser até verossímeis,