Este livro não é apenas uma contribuição técnica para o campo acadêmico, mas também um manifesto necessário sobre o uso e o direito ao espaço. Esse último é compreendido pela autora como “encontro das diferenças e das assimetrias nos lugares, em busca de outro pensamento sobre a cidade que possibilite nossa existência, distante da funcionalização da pobreza”, uma vez que os espaços [auto]construídos estão intrinsecamente vinculados aos seus moradores. Isto é, tornam-se lugares que abrigam o "direito de existir".
Denise propõe, desde a abertura da obra, a “urgência de outro olhar” – um olhar direcionado à compreensão das condições locais de vida e das lógicas comunitárias do habitar, do resistir e do próprio existir no contexto de uma sociedade excludente.
No caminhar, agora teórico, recorre a um conjunto autoral e conceitual inovador e multidisciplinar, orientado à formulação da noção de “direito de existir”, com base em múltiplas autorias e capitaneado pela “lógica da prática”, de Pierre Bourdieu. Trata-se de uma chave conceitual que a autora vem empregando ao longo de sua trajetória de estudos sobre moradia e cidade, a partir da qual se concebe a possibilidade de “outra lógica da prática”, que emerge quando os agentes acionam estratégias fundadas naquilo que lhes é próprio, em confronto com a lógica da prática dominante.
Em “Os lugares [auto]construídos”, segunda parte da obra, questiona-se o não reconhecimento, pela área de arquitetura e planejamento urbano, frente à imensa desigualdade urbana presente nas grandes cidades brasileiras. É na prática da [auto]construção que a autora tenta compreender a lógica histórica e perversa que estrutura a sociedade brasileira. E chega-se a Belo Horizonte, a capital planejada e edificada sobre o Curral d’El-Rei no final do século XIX. Um espaço desfigurado ou, por que não dizer, radicalmente destruído para que se erguesse a nova sede do poder mineiro.