Este livro propõe uma análise crítica da governança armada exercida pelo Comando Vermelho nas favelas do Rio de Janeiro, compreendendo-a não como disfunção do Estado, mas como forma específica de governo que emerge nas margens da legalidade. Resultado da dissertação de mestrado desenvolvida por Júlia Quirino no Programa de Pós-Graduação em Estudos Estratégicos da Defesa e Segurança (UFF), a obra apresenta uma pesquisa empírica densa e de longa duração, a partir da qual se formula o conceito de Panóptico Criminal — uma chave analítica para descrever a racionalidade política que estrutura o exercício de poder armado em contextos urbanos periféricos.
Ao tensionar as fronteiras entre crime, soberania e controle social, a autora mobiliza contribuições das relações internacionais, ciência política, sociologia e dos estudos críticos de segurança para demonstrar que, sob a égide da facção, produz-se um regime disciplinar que regula o território, a vida, a morte, os corpos, a economia e o cotidiano. Trata-se de uma forma de governo não estatal que impõe uma ordem coercitiva onde o Estado se manifesta seletivamente por meio da violência letal ou da omissão estratégica.
A autora rompe com o senso comum sobre violência, criminalidade e território, ao avançar na compreensão das dinâmicas contemporâneas do crime organizado no Brasil. A obra mostra como organizações criminosas constroem legitimidade, impõem normas e disputam soberania nos territórios urbanos. Leitura fundamental para pesquisadores, formuladores de políticas públicas e todos aqueles que se dedicam a compreender o entrelaçamento entre poder ilegal e gestão da vida nos contextos de guerra social não declarada