O culto aos santos possui, no Catolicismo, uma função específica de exemplaridade. Eles não são apenas intermediários junto a Deus e participantes, como membros da Igreja triunfante, da economia do corpo místico de Cristo, que a todos nos engloba, mas sua figura nos é proposta como exemplo e ideal de vida. Por isso, não apenas se invoca sua intercessão, como também se reproduz sua efígie, se cantam seus triunfos e se escrevem suas biografias.
No entanto, com essa exemplaridade nos sucede algo curioso. À força de chamá-los santos, tendemos a esquecer que são verdadeiros homens, como se seu mero qualificativo os estabelecesse, por natureza, em outra espécie. Não nos surpreendem suas histórias extraordinárias justamente por serem santos, esquecendo que estamos rigorosamente no mesmo plano que eles: como nós, nasceram homens chamados à santidade.
Uma hagiografia apressadamente edificante, por acúmulo de maravilhas, é, em grande parte, culpada disso; o restante corresponde, naturalmente, à inveterada preguiça humana. Mas note-se como a lenda hagiográfica não trabalha forçosamente nessa direção desumanizadora. O santo padroeiro de uma aldeia camponesa pode ter perdido, envolto na lenda, todo o perfil autêntico de sua personalidade histórica, mas adquiriu outro, não menos humano e perfeitamente comum com o povo que o venera. Intervém em seus afazeres e tragédias, responde pela chuva e pelo granizo e tem uma jurisdição perfeitamente delimitada e em escala humana. Não surpreenderia demasiadamente seus fiéis vê-lo um dia andando pelos campos, com seu cajado e sua auréola, ajudando na debulha ou acudindo solicito para resgatar uma ovelha desgarrada.