Os diálogos mais improváveis foram repetidos palavra por palavra;
as invenções mais escabrosas são citações.
Em agosto de 1914, a Europa entrou em guerra. Quatro anos depois, milhões de mortos separavam o continente do mundo que existira antes. Impérios haviam ruído, e uma confiança secular no progresso, na razão e na cultura sofrera um golpe irreversível. Pouquíssimos escritores perceberam essa transformação enquanto ela acontecia. Karl Kraus foi um deles. Enquanto a guerra avançava, recolhia vozes: lia jornais, escutava conversas de café, discursos parlamentares, proclamações militares e anúncios publicitários. Os assuntos de sua sátira não eram os grandes acontecimentos da história, mas os jornais, os discursos, os anúncios e os lugares-comuns pelos quais a história se tornava possível. Não procurava explicar a catástrofe; procurava ouvir a linguagem que a produzia. Em mais de duzentas cenas, generais e jornalistas, patriotas e especuladores, burocratas e cidadãos comuns atravessam a Viena da Grande Guerra. As conversas mais inverossímeis são citações.
Escrita entre 1915 e 1922, Os últimos dias da humanidade é ao mesmo tempo drama documental, sátira e crônica histórica sem equivalente. Sua matéria não é apenas a guerra, mas a relação entre linguagem e realidade: o modo como palavras ocultam os fatos ou os revelam. Esta edição apresenta, pela primeira vez no Brasil, a tradução integral do original alemão: prólogo, cinco atos e epílogo. Nela, a guerra é vista não apenas do campo de batalha, mas das redações, dos cafés, dos escritórios e das ruas — lugares onde as palavras começam a produzir os acontecimentos que pretendem apenas descrever.
Tradução do alemão e notas de Wagner Schadeck
Introdução de Ronald Robson e Otto Maria Carpeaux
Acompanha Cronologia do autor e breve cronologia da Primeira Guerra Mundial com mapas