Embora mais conhecido no Brasil por sua obra cinematográfica, Pier Paolo Pasolini se considerava, acima de tudo, um poeta, a ponto de definir seus filmes como “cinema de poesia”.
Esta coletânea – em edição bilíngue, com textos críticos e notas para o leitor brasileiro – reúne poemas de diferentes fases da trajetória de Pasolini e demonstram a variedade formal e temática de sua produção: do experimentalismo em dialeto friulano às longas composições de tom ensaístico e narrativo, passando por versos que dialogam com o pensamento marxista de Gramsci, com a marginalidade urbana, o desejo homoerótico e as contradições da modernidade.
A obra poética de Pasolini permanece tão inquietante quanto visionária. Esta reedição oferece ao leitor a oportunidade de reencontrar um autor cuja poesia atravessa toda a sua criação – dos romances aos ensaios, dos artigos políticos ao cinema – e cuja voz continua sendo uma das mais originais e indispensáveis do século XX.
[...] A montagem da antologia talvez construa a seu modo a série “O romance dos massacres” [1974], reconfigurando um procedimento caro a Pasolini, o qual “articula fatos mesmos distantes, que reúne os cacos desorganizados e fragmentários de todo um quadro político coerente.” Ou como lemos no poema “Balada das mães”: “Eu sou uma força do Passado.”
Jon Halliday, durante uma entrevista com Pasolini, feita em Roma, em 1968, relembra a crítica de Franco Fortini, que via na poesia de Pasolini uma relação entre a potência da poesia moderna e o conteúdo ideológico que pode ser entendido como já dado, e aquela de Alberto Asor Rosa, que via em sua poesia uma fórmula caracterizada por uma nova ideologia que se enxerta em formas tradicionais. Por fim, pergunta ao escritor: “Por qual motivo expressaram opiniões tão contraditórias, segundo você?”.
Pasolini transforma a contradição em ambivalência. Diz ele: “Para mim, ambos têm e não têm razão. Todos os dois são justificáveis. Eu não sou um inventor de ideologias. Não sou um pensador e jamais aspirei sê-lo. Às vezes, dentro de um contexto de uma ideologia me surge alguma intuição, e assim me ocorreu de preceder os ideólogos de profissão. E estilisticamente sou um pasticheur. Uso o material estilístico mais disparatado: poesia dialetal, poesia decadente, certas tentativas de poesia socialista.”
O complemento de sua resposta traz algo que desarticula qualquer leitura formalista acerca de sua poesia: “Aquilo que conta é o grau de violência e de intensidade, e isso investe tanto a forma quanto os estilos, e também a ideologia. O que conta é a profundidade do sentimento, a paixão que ponho nas coisas; não sou, portanto, nem a novidade dos conteúdos, nem a novidade da forma.”
Davi Pessoa, “Antologia reúne poemas de Pier Paolo Pasolini”, crítica à primeira edição deste livro em O Globo, out. 2015.