Entre a morte do pai e a da mãe passaram-se pouco mais de mil dias. Ana Amelia, brasileira que emigrou para a Suíça, pôde acompanhar o falecimento de ambos — e descobriu que já carregava um terceiro luto, o da terra que havia deixado. Sô e Rô reconstrói um casal pelos fragmentos que sobraram no período de luto: um monograma desenhado num caderno de namoro, um passaporte picado em quatro, um portfólio jogado numa lixeira do metrô. Sônia, paulistana de Pinheiros, dona de casa que dava tudo igual aos três filhos e não comprava um doce se não desse para dividir por três. Rodolfo, mineiro que emigrou para São Paulo, funcionário público e poeta, publicou seis livros em meio às crises do transtorno bipolar. Do lado do pai, a escrita — os livros dele, os sebos onde ela foi buscá-los, as narrativas que ela própria cria. Do lado da mãe, a terra materna e o fio da ancestralidade feminina: na pele, no cabelo, nos cremes, em tudo o que observamos nas mães e nas avós e por vezes não percebemos em nós mesmas. Entre Sônia e Rodolfo, a criança colhia fragmentos no lar dos adultos, em busca de uma versão de si que lhe permitisse pertencer e ao mesmo tempo ser outra. Entre mãe e pai, a filha adulta que agora escreve sabe que a memória também inventa. Sô e Rô é um romance de fragmentos sobre luto, migração e o que se transmite de uma geração a outra. Inventando fielmente, a autora olha os fatos por diferentes ângulos — e compreende que silêncios também são resposta.