Para lá das polémicas do Inverno de 1987-1988, o dossier Heidegger permanece em aberto nas suas questões filosóficas. Trata-se de entender como é que um pensamento fenomenológico, à partida totalmente alheio à preocupação das questões públicas, pôdeexpor-se e, depois, relacionar-se, a um perigo político extremo, sem conseguir desfazer o imbróglio provocado pela filiação política de 1933. Um ensaio que desenvolve uma nova hipótese explicativa: é incontestável que existe um elo entre o pensamento filosófico e a militância do homem Heidegger, mas ele só revela a sua verdadeira dimensão à luz de uma reflexão ulterior, que excede, de parte a parte, a ideologia nazi. Ao longo das diferentes etapas de uma evolução complexa, que o fez passar do seu primeiro apolitismo a uma "política originária" e, depois, a uma "a-política" projectando a mundialização técnica, Heidegger implementou uma interpretação do destino ocidental, unificada a partir da leitura da metafísica como história do ser. Estaarticulação do seu pensamento é, aqui, denominada "historialismo destinal" e criticada devido ao seu carácter incondicional, o qual obriga a contrapor apenas ao niilismo activo, a espera solitária do "deus que vem", exortando as duas figuras antiteticamente emblemáticas da nossa modernidade: Nietzsche e Hölderlin.