Entre prateleiras iluminadas, carrinhos que deslizam por corredores padronizados e sistemas logísticos que atravessam continentes, a alimentação cotidiana revela muito mais do que hábitos de consumo. Ela expõe uma profunda transformação nas formas de produzir, distribuir e acessar os alimentos nas grandes cidades. Este livro nos conduz justamente por esse percurso, explorando o conceito de “supermercadização”: um processo de crescente centralidade das grandes redes varejistas na organização do abastecimento urbano. Ao investigar metrópoles latino-americanas como São Paulo, Cidade do México, Lima e Santiago, a obra demonstra que a expansão dessas corporações não se limita ao comércio. Trata-se de um fenômeno que reorganiza circuitos produtivos, redefine relações entre campo e cidade e redesenha o próprio espaço urbano. Nas tramas dessa reorganização emergem novas centralidades de consumo, formas seletivas de acesso aos alimentos e dinâmicas que aprofundam desigualdades historicamente construídas. A análise proposta percorre as múltiplas escalas que estruturam o abastecimento alimentar contemporâneo, conectando estratégias corporativas globais, políticas econômicas nacionais, e lógicas e práticas segmentadas no cotidiano do consumo nas metrópoles. Nesse movimento, evidencia-se como o avanço da globalização e das agendas neoliberais, sobretudo a partir dos anos 1990, abriu caminhos para a consolidação de novos agentes e para a reconfiguração dos sistemas alimentares urbanos. Mais do que uma análise econômica, este livro oferece uma leitura sensível no urbano contemporâneo e o estabelecimento da vida urbana no passo da fragmentação socioespacial. Ao acompanhar os caminhos que ligam produção, circulação e consumo, revela-se a complexa heterarquia de interações espaciais que atravessa a vida urbana contemporânea.