Incidentes, acidentes e complicações inerentes ao ato anestésico-cirúrgico podem ocorrer de modo imprevisível. A anestesia como as demais especialidades médicas é uma atividade de meio e não de fim. Embora ela se enquadre nesse conceito, o que se observa é um alto índice de desfechos favoráveis ao que se propõe dentro dos seus objetivos básicos, quais sejam; hipnose, analgesia, relaxamento muscular e controle dos reflexos autonômicos. Desde as descobertas das propriedades anestésicas de alguns fármacos possibilitando a realização de cirurgias, até os dias de hoje, onde a anestesia ocupa lugar de destaque em toda a medicina perioperatória, ampliou-se o leque dos desfechos favoráveis, assim como também com a possibilidade de se deparar com complicações advindas de várias origens. Considerando também que existem estratégias preventivas para minimizar a possibilidade de complicações, na realidade, talvez os termos mais apropriados sejam “eventos adversos”. Os eventos adversos podem ser decorrentes dos fármacos, das técnicas anestésicas, do ato cirúrgico ou exames diagnósticos e, principalmente, do estado físico do paciente que, sem dúvida é a maior variável dentre os fatores predisponentes. Em anestesiologia, hoje então com propósitos abrangentes, a medicina perioperatória, pode-se dividir o uso de fármacos claramente em três grupos: os fármacos utilizados para prover anestesia e analgesia propriamente ditos; os fármacos que os pacientes fazem uso; os fármacos que são necessários para a condução do ato anestésico-cirúrgico. Soma-se a isso a interação farmacológica entre os diferentes fármacos e a variabilidade biológica dos pacientes como a idade, sexo e as doenças preexistentes. Assim sendo, é possível dizer, que a farmacoterapia intraoperatória é dependente de vários fatores para que se possa obter o resultado desejado. A farmacoterapia nem sempre é marcada por desfecho favorável, podendo ocorrer simples reações adversas, graves intoxicações e até reações fatais, embora raras. Os efeitos farmacológicos sobre as funções biológicas não podem ser previstos como em ciências exatas, pois os sistemas biológicos, pelas suas possibilidades de variação de respostas aos fármacos, com características probabilísticas, necessitam sempre de uma análise estatística. O método científico ressalta o que foi medido, quando foi medido e por que foi medido, possibilitando a coleta de dados, que deverá ser submetida a análise estatística através de testes paramétricos, ou não paramétricos na dependência do tipo de estudo. Assim sendo, pode-se inferir que se análise começa pela média e desvios padrão ou pela mediana, já se está admitindo a ocorrência de variações. Na realidade elas de fato existem, bastando verificar as várias formas de curvas dose resposta no histograma de Gauss podendo-se concluir que existem comportamentos diferentes dos indivíduos para um mesmo fármaco. Isso inclui o estudo da farmacologia, da farmacogenética e do farmacogenôma. A farmacologia é multidisciplinar podendo ser conceituada como sendo o estudo do modo pelo qual a função de todos os sistemas biológicos é afetada pelos agentes químicos. Sua evolução caminha juntamente com o desenvolvimento da fisiologia experimental e da química, permitindo a análise de princípios ativos naturais e sintéticos. O caminho do fármaco até sua eliminação passa, em grande parte, pela biotransformação, O processo de biotransformação só será eficiente na presença de enzimas ou sistemas enzimáticos. Observa-se que existem diferentes velocidades de eliminação, fazendo crer que existem diferentes quantidades de enzimas causando essa variabilidade de respostas, ligadas evidentemente a variabilidade genética. As respostas aos fármacos são influenciadas por muitos fatores, incluindo-se doenças preexistentes estado de saúde, influências ambientais e características genéticas. Assim sendo, polimorfismos genéticos incidindo sobre enzimas metabolizadoras, transportadores ou receptores contribuem nas respostas aos fármacos. A farmacogenética se refere ao estudo da variabilidade das respostas individuais aos fármacos, proveniente de fatores genéticos hereditários. A farmacogenômica é a aplicação da farmocogenética na totalidade de um genoma de uma determinada população. A farmacogenôma procura individualizar genomas específicos com a finalidade estudar uma determinada herança específica. Além da utilização de fármacos para prover anestesia, o anestesiologista ocupa-se do controle das variáveis fisiológicas de todo o organismo decorrentes do ato cirúrgico e suas repercussões no intra e no pós-operatório imediato. Controlar a dor é fundamental para evolução do paciente. O anestesiologista conhecedor que é dos fármacos, das técnicas anestésicas e das etapas críticas do ato cirúrgico ou dos exames diagnósticos que necessitam de anestesia, depara-se sempre com a grande variável que é o paciente e suas possíveis comorbidades. Estabelecer estratégias preventivas de eventos adversos faz