Clubes transformados em empresas, estádios gentrificados e frios, jogadores que são marcas globais e sem nenhuma identificação com seus clubes, bilhões em direitos de transmissão de TV. Essa é apenas a superfície de uma história mais ampla e complexa. Uma história popular do futebol, de Mickaël Correia, propõe virar o jogo e recuperar o que está às margens da cena oficial.
Jogado nas ruas dos bairros pobres das grandes cidades e nos campos de terra do interior, defendido por pequenos clubes e por torcedores que se negam a aceitar sua mercantilização absoluta, o futebol se manifesta em muitas histórias. E foram precisamente estas histórias que Correia foi buscar para compor um panorama original sobre o esporte mais popular do mundo.
O livro começa pelas origens do futebol, nos jogos medievais de bola, e acompanha sua codificação pela burguesia britânica no século XIX, que buscava disciplinar a juventude privilegiada para as exigências do industrialismo. A classe operária não tardaria a se apropriar das regras, contudo, e o que deveria ser instrumento de controle patronal se converteu em ferramenta de consciência de classe e orgulho comunitário.
Correia descreve como o futebol se tornou uma arena de lutas sociais nos quatro cantos do mundo a partir de então. Da Inglaterra à Palestina, do Brasil ao Egito, da França à África do Sul, o autor percorre um século de história em que o futebol se revelou terreno fértil para a resistência política. Da Democracia Corintiana, que desafiou a ditadura militar no Brasil, à seleção da FLN que jogava pela independência da Argélia; dos jogadores que enfrentaram o nazismo na Kiev ocupada à Palestina, que usa o jogo como símbolo de afirmação nacional, o campo aparece repetidamente como palco de confrontos que vão muito além do esporte. Assim, figuras emblemáticas como Garrincha, Maradona e Megan Rapinoe surgem não só como atletas excepcionais, mas como personagens que resumem contradições históricas: a vingança do pobre, a genialidade sem controle, o esporte como tribuna política.
O autor dedica atenção especial ao futebol feminino, desde as pioneiras trabalhadoras inglesas que jogavam durante a Primeira Guerra Mundial até os coletivos contemporâneos que enfrentam o machismo estrutural. Analisa também a evolução das arquibancadas: do hooliganismo na Inglaterra aos ultras na Itália, no Egito e na Turquia, demonstrando como as torcidas organizadas transformaram os estádios em espaços de contestação e identidade coletiva, muito antes de se tornarem alvo de repressão.
Uma história popular do futebol é um convite para recuperar o que o esporte tem de mais genuíno: a alegria e a invenção. Mickaël Correia não escreve uma hagiografia, mas demonstra que o futebol foi e continua sendo um instrumento de emancipação. Uma leitura fundamental para quem ama o jogo.