Ações, processos e instituições não existem sem as interpretações que as acompanham. Estão em relações reflexivas. Esta é a agenda de debates proposta pela coleção Pensamento Político-Social, que publica títulos relevantes sobre interpretações clássicas e contemporâneas da sociedade brasileira e outras, em suas muitas formas e variados suportes. Queremos contribuir para a compreensão dos desafios históricos e atuais da sociedade e da cultura, bem como para uma nova compreensão menos minimalista da política. Uma abordagem interseccional que nos ajude a reconstruir visões renovadas de conjunto.
André Botelho, Elide Rugai Bastos, Gabriela Nunes Ferreira e Maurício Hoelz
"Luz do sol, que a folha traga e traduz em verde novo". A partir da canção-poema de Caetano Veloso, a fotossíntese ganha também sentido de alegoria para pensar a dinâmica do modernismo brasileiro como movimento de renovação cultural. Verde novo revisita a revista Verde, editada entre 1927 e 1929, num quadro sociológico inovador. João Mello toma as relações dos jovens de Cataguases, Minas Gerais, Rosário Fusco à frente, com Mário de Andrade como parte de uma rede de articulações mais amplas e significativas para o modernismo como um todo. Invertem-se as perspectivas tradicionais: ao invés de Verde apenas expressar a força do modernismo nos anos 1920, do centro para a periferia, ela ganha centralidade no projeto de renovação estética radical encetado e liderado por Mário. É um caminho de mão dupla que percorremos no livro, portanto. Ganham destaque, assim, as questões do local e do cosmopolita e do entrelaçamento entre gerações. Para passar da contestação à criação, o modernismo dependia da conquista dos corações, mentes e mãos jovens para enfrentarem os imensos desafios implicados na pretendida reorientação da cultura brasileira, o que não se esgotava no presente. O livro traz à tona essa categoria sociológica esquecida, a de geração, discutindo as especificidades da ideia de juventude como portadora social da mudança cultural. O diálogo de João Mello com a tese do modernismo como movimento cultural, que formulei com Maurício Hoelz, é extremamente proficuo. E Minas Gerais não figura, no livro, apenas como espaço geográfico. Verde novo também é resultado, aliás, como primeiro trabalho acadêmico de mestrado, do projeto/rede Minasmundo que, entre 2020 e 2024, congregou mais de 70 pesquisadoras e pesquisadores empenhados em rediscutir o cosmopolitismo na cultura brasileira a partir de Minas. Vemos, assim, que o "novo" de Verde novo diz respeito à juventude, mas também à inovação quando o diálogo entre as gerações acontece. Ver de novo.
— André Botelho (UFRJ)