A obra “Questão social” e Estado no Brasil (1850-1930): origens históricas e fundamentos teóricos é parte do atual e intenso painel de investigações que se debruça sob uma revisão da nossa formação social. Tal revisão busca reconhecer as particularidades da “questão social” e de suas formas de enfrentamento pelas classes sociais e pelo Estado no capitalismo brasileiro. Pode-se dizer que o movimento de “aproximações sucessivas” do qual esse livro é constitutivo oferece muitas contribuições em distintas áreas do conhecimento. No caso do Serviço Social, é visível o quanto tem sido responsável por desentranhar mediações determinantes das demandas e respostas profissionais historicamente situadas que, até então, encontravam-se apenas parcialmente visibilizadas – a exemplo da racialização da classe trabalhadora brasileira, indispensável para compreender as inúmeras violações de direitos humanos presentes no cotidiano da vida social desses segmentos. Partindo de premissas já consolidadas acerca da interpretação do Brasil, os textos aqui reunidos sugerem novos caminhos para análise desse feixe de questões, potencializando o “bom debate” que caracteriza o melhor da tradição marxista, no contraponto ao asséptico universo da produção de conhecimento dominado pelos critérios da avaliação tecnocrática que hegemonizam, em nossos dias, a universidade brasileira. Nesse espírito que convoca ao debate, temas como as múltiplas resistências da classe trabalhadora anteriores à presença de imigrantes europeus no Brasil; o papel do Nordeste na configuração do quadro desigual e combinado da economia nacional; a interpretação binária da “questão social” como “caso de polícia” ou “caso de política”; a questão agrária e suas relações com a “questão social”, entre outros, são objeto de criteriosas e consistentes análises. Entretanto, a obra que a leitora e o leitor têm em mãos é bem mais que um conjunto de análises. Está imiscuída na trajetória politicamente situada de suas autoras e autores, em cujas biografias comparecem elementos militantes que dizem muito sobre o ponto de vista daquelas e daqueles para quem interpretar o mundo só faz sentido na perspectiva de sua transformação, conforme lições legadas pelo velho Marx. Também nisso, portanto, é inegável sua coerência e a consistência.