É preciso colocar ideias em movimento! Judith Butler não se cansa de falar sobre traduções culturais, incorporações ou ações em aliança em que novos sentidos emergem. Não podemos nos esquecer de que sua trajetória intelectual é marcada por uma apropriação peculiar da “tradição francesa”, particularmente, pela reconstrução de um Hegel afrancesado em tensão com pensadores como Foucault e Derrida. Ideias foram intencionalmente retiradas de seu lugar de origem. Aterrissaram nos EUA em meio a lutas de movimentos feministas, antirracistas e LGBTQIA+. É, em grande medida, por sua sensibilidade ao papel de tais mudanças de cena que Butler constrói uma teoria original e de grande plasticidade, a qual permite reconstruções, rearranjos conceituais e novas ênfases capazes de fornecer respostas inovadoras a desafios presentes em variados contextos. Este livro surge como um experimento que convoca as autoras e autores a se apropriarem, cada uma a sua maneira, de noções presentes nos escritos de Butler publicados em “Quem tem medo do gênero?”. São cartas que exigem implicação autoral e retiram, novamente, ideias de lugar: remetentes brasileiras escrevem a uma destinatária estadunidense. Há um esforço de cruzamento entre a perspectiva da filósofa e vivências das remetentes que são perpassadas por dilemas do nosso tempo e do nosso País. Leitoras e leitores serão convidadas a pensar sobre temas como identidades lésbicas e não-binárias, o funcionamento do desejo em “apps de pegação” e em redes sociais, distopia e fundamentalismo religioso, relação entre neoliberalismo, religião e ataques a mulheres e a população LGBTQIA+. Existe, certamente, neste trabalho um impulso para colocar ideias em movimento. Insisto, contudo, que, ao invés de uma simples harmonia, para que o movimento ocorra é necessário explorar tensões de maneira produtiva. Uma boa leitora poderá também realizar seus experimentos. Poderá observar contrastes entre os escritos de Butler e sua apropriação, colocar as cartas em tensão entre si e levar a sério a diversidade de olhares sobre dilemas concretos. Este livro se tornará especialmente instigante na medida em que for desfeito e, uma vez e de novo, refeito por suas leitoras. Mariana Pimentel Fischer